domingo, 13 de outubro de 2013

Intimidade com o Sol

Se o meu nome mereceu justificação e justificado ficou que o Sol foi o primeiro argumento para a minha identidade, então outra prova se interpõe sobre a intimidade que entre nós cresce.

Esta relação é longa, tão longa quanto as horas que tenho de vida. Nasci quando o Sol se marcava no cima da esfera celestial, a mesma que se marca em mistério ao acesso de todos, ainda que lhe fique espaço para o conhecimento que não é numérico, aquele que é tanto quanto é nos sentidos que o aprisionam e devoram.

Parece-me invocar razões astrológicas. Coisas essas que atam as mãos das pessoas, porque lhe dão todo o literalismo e fatalismo que se poderia dar às forças que não vemos mas em que acreditamos. A minha avó disse há pouco "ninguém foge à sua Sorte". Pois é, ninguém foge, mas a Sorte é como uma companheira que vai ao nosso lado e nunca à nossa frente. Se o Sol foi a minha Sorte, importada não ficaria se esse desígnio fosse o meu lado esquerdo, o meu lado direito, o que está à frente, o que segue atrás. Fosse tudo quanto calha, tudo quanto lido.

Quando me perguntam o que mais gosto, respondo que sou apaixonada pelo Sol a bater no rosto, em moderada potência radiante. É tal a carícia, que sucumbo a essa intimidade. Deixo de ter corpo, enfraquece-me a solidez que se espera desta racionalidade que veio dos tempos lá antigos. E quanto menos material sou, mais vida ganho.

Não nego conseguir melhor expressar o que se passa comigo quando o Sol em azul fresco se planta. Afinal de contas, a expressão é dele, porque queima, e há quem leve uma vida de literatura para isso.

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