sábado, 26 de outubro de 2013

O Esqueleto

O esqueleto das minhas letras pretendo que seja um fóssil do que virá. Tem de estar preparado para o movimento rápido e inalcançável da beleza das formas. Deve despir-se da integridade que se exige às ideias e desmembrar-se a todo o instante. Não me importarei se o vir desmembrado, se em lugar da mão nascer outro esqueleto e dele outra mão.

Ele sabe que tem de lançar-se à passagem das línguas e fechar-lhes as portas que dão ao comando central e perturbador, para evitar a perda da graça do que se diz pela brutalidade do que se atinge. É isso. As línguas que levantam ondas que nunca chegarão à praia. E esquecem a terra expectante para rebentarem lindas, magnéticas no mar alto de onde vieram, de onde pertencem.

Quero esse esqueleto em comunhão com o meu, que pende a minha cabeça e fecha-me os olhos em êxtase e, logo, cegos, com aquilo que corre incessantemente na língua, querendo mais e mais do que virá, sem parar, mas permanecendo intocável tal e qual o seu primeiro estímulo.







domingo, 13 de outubro de 2013

Intimidade com o Sol

Se o meu nome mereceu justificação e justificado ficou que o Sol foi o primeiro argumento para a minha identidade, então outra prova se interpõe sobre a intimidade que entre nós cresce.

Esta relação é longa, tão longa quanto as horas que tenho de vida. Nasci quando o Sol se marcava no cima da esfera celestial, a mesma que se marca em mistério ao acesso de todos, ainda que lhe fique espaço para o conhecimento que não é numérico, aquele que é tanto quanto é nos sentidos que o aprisionam e devoram.

Parece-me invocar razões astrológicas. Coisas essas que atam as mãos das pessoas, porque lhe dão todo o literalismo e fatalismo que se poderia dar às forças que não vemos mas em que acreditamos. A minha avó disse há pouco "ninguém foge à sua Sorte". Pois é, ninguém foge, mas a Sorte é como uma companheira que vai ao nosso lado e nunca à nossa frente. Se o Sol foi a minha Sorte, importada não ficaria se esse desígnio fosse o meu lado esquerdo, o meu lado direito, o que está à frente, o que segue atrás. Fosse tudo quanto calha, tudo quanto lido.

Quando me perguntam o que mais gosto, respondo que sou apaixonada pelo Sol a bater no rosto, em moderada potência radiante. É tal a carícia, que sucumbo a essa intimidade. Deixo de ter corpo, enfraquece-me a solidez que se espera desta racionalidade que veio dos tempos lá antigos. E quanto menos material sou, mais vida ganho.

Não nego conseguir melhor expressar o que se passa comigo quando o Sol em azul fresco se planta. Afinal de contas, a expressão é dele, porque queima, e há quem leve uma vida de literatura para isso.

sábado, 12 de outubro de 2013

Criação

Começa agora uma estreita ligação entre mim e um público que não se lhe conhece o rosto, ainda que do meu pouco mais conhecimento se faça. Apenas que tem paixão pelo Sol que o toca.

Eva. Três letras. Cada letra é uma não-palavra. Quão difícil foi escolher esse nome que não é meu. De tal dito tiro a própria justificação. Difícil foi porque não é o meu. A minha identidade é-me tão sagrada que me espanto por ainda não lhe ter erguido um templo no ponto mais alto de mim. Ao invés, anda por aí, plebeia, no meio da confusão de outras identidades mais ou menos seguras de si.

Mas cheguei lá. Optei pelo género da criação. O Princípio. Eva que tinha carne humana e por carne humana se consumiu. A única e verdadeira encarnação, se ao termo escrutinarem a sua raiz, em carne.

As regras dos nomes precipitaram outra escolha, o meu não-apelido. Outro não tão idêntico ao que sou, mas belo quando em material existência se abre aos primeiros indícios de Sol. A Amendoeira. Tal como eu. Afinal vem quase idêntico. Quis o meu pai e o pai do meu pai e por aí diante por outra árvore de nome genealógica que assim não fosse.

Explicado está o meu nome, tão digna dele estou quanto possível, já que a minha dignidade se enche somente ao verdadeiro.